Vi pela primeira vez, há poucos dias, um encantador de serpentes. Não era nada como eu supunha que fosse. Quero dizer, as serpentes não me pareceram encantadas – achei que estavam mortas de sono. O homem fazia ondular a flauta e elas levantavam a cabeça com o enorme esforço, mas não eram capazes de acompanhar o ritmo, cabeceavam, as pobres, e regressavam rapidamente para dentro das suas caixinhas de palha. Li em algum lado que as serpentes são surdas. Elas não reagem à música fascinadas pelo poder da melodia: o que fazem é seguia os movimentos da flauta à procura do instante exacto para dar o bote. Aquelas, porém, nem isso. Dei umas vinte rupias ao encantador e ele agradeceu:
- Obrigado Baba. Veja como esta serpente dança com a minha música.
E, para meu desespero, repetiu o número.
Conheço alguns homens que são como aquele encantador de serpentes. Julgam-se capazes de encantar as mulheres com o poder de uma voz bem timbrada e a música de um discurso original. Ficam felizes quando percebem que elas reagem erguendo a cabeça, abrindo muito os olhos, mostrando a luz de um sorriso: «Vejam como esta mulher dança com a minha música». Coitados, mal sabem que a presumível vítima pode estar, muito simplesmente, a preparar o ataque. Mal sabem que talvez sejam eles a vítima.
A diferença entre as mulheres e as serpentes, assegura uma amiga minha, é que as serpentes pelo menos parecem-se com serpentes, e por isso as mulheres, que quase sempre se parecem com anjos, são infinitamente mais perigosas. As mulheres, ao contrário das serpentes, acrescenta ela, nem sequer precisam de usar veneno para paralisar e comer as suas vítimas. Só uma mulher poderia produzir um pensamento tão venenoso. Eu não concordo, realmente não concordo, mas ainda que concordasse não o admitiria aqui.
Naturalmente, pelo sim pelo não, procuro ter algum cuidado. Por exemplo: não saio com nenhuma mulher sem antes recolher o veneno de outra, isto é, duas ou três frases de grande efeito, suficientemente maldosas para que se saiba que estou prevenido. «Merecias ser mulher», dizem-me algumas, surpreendidas, um pouco desconfiadas, e eu sei que esse é o maior elogio que se pode fazer a um homem. Digamos que seria mais ou menos como uma serpente dizer a um ratinho, «merecias ser serpente».
Por outro lado evito discutir com mulheres – sobretudo com mulheres apaixonadas. Fecho os olhos, cruzo os dedos, e finjo que acredito na chamada intuição feminina, esse estranho instinto, como definiu a escritora americana Helen Rowland, que permite uma mulher saber que está certa, esteja certa ou não.
Até agora, verdade se diga, não me dei muito mal.
José Eduardo Agualusa
- Obrigado Baba. Veja como esta serpente dança com a minha música.
E, para meu desespero, repetiu o número.
Conheço alguns homens que são como aquele encantador de serpentes. Julgam-se capazes de encantar as mulheres com o poder de uma voz bem timbrada e a música de um discurso original. Ficam felizes quando percebem que elas reagem erguendo a cabeça, abrindo muito os olhos, mostrando a luz de um sorriso: «Vejam como esta mulher dança com a minha música». Coitados, mal sabem que a presumível vítima pode estar, muito simplesmente, a preparar o ataque. Mal sabem que talvez sejam eles a vítima.
A diferença entre as mulheres e as serpentes, assegura uma amiga minha, é que as serpentes pelo menos parecem-se com serpentes, e por isso as mulheres, que quase sempre se parecem com anjos, são infinitamente mais perigosas. As mulheres, ao contrário das serpentes, acrescenta ela, nem sequer precisam de usar veneno para paralisar e comer as suas vítimas. Só uma mulher poderia produzir um pensamento tão venenoso. Eu não concordo, realmente não concordo, mas ainda que concordasse não o admitiria aqui.
Naturalmente, pelo sim pelo não, procuro ter algum cuidado. Por exemplo: não saio com nenhuma mulher sem antes recolher o veneno de outra, isto é, duas ou três frases de grande efeito, suficientemente maldosas para que se saiba que estou prevenido. «Merecias ser mulher», dizem-me algumas, surpreendidas, um pouco desconfiadas, e eu sei que esse é o maior elogio que se pode fazer a um homem. Digamos que seria mais ou menos como uma serpente dizer a um ratinho, «merecias ser serpente».
Por outro lado evito discutir com mulheres – sobretudo com mulheres apaixonadas. Fecho os olhos, cruzo os dedos, e finjo que acredito na chamada intuição feminina, esse estranho instinto, como definiu a escritora americana Helen Rowland, que permite uma mulher saber que está certa, esteja certa ou não.
Até agora, verdade se diga, não me dei muito mal.
José Eduardo Agualusa
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